As franquias de ginásio que publicam números em Portugal pedem-te entre 15.000 e 40.000 EUR de direito de entrada, com royalties que vão de 1 EUR por cliente até 5% da faturação sem IVA. O investimento total anunciado situa-se entre 25.000 e 400.000 EUR, conforme a marca e a área. Antes de assinares, exige por escrito o que fica de fora.
Neste artigo
- O que é que compras mesmo quando compras uma franquia?
- Quanto custa o direito de entrada e os royalties em Portugal?
- O fundo de marketing paga o quê, exatamente?
- A exclusividade de zona protege-te de quê?
- Obras, layout e fornecedores: onde é que o orçamento estoura
- Podem obrigar-te a cobrar um preço certo?
- E o software, escolhe-lo tu ou vem imposto?
- A mesma verba em franquia ou por tua conta: a conta comparada
- Quando é que a franquia compensa?
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é que compras mesmo quando compras uma franquia?
Compras três coisas e convém separares o valor de cada uma logo à cabeça: um nome que a tua zona já reconhece, um manual de operação que a marca te entrega pronto, e uma central que te negoceia equipamento, formação e campanhas. Nada disto é pouco. Um ginásio de bairro sem marca leva dois anos a construir a confiança que uma insígnia conhecida te empresta no dia da abertura.
O que não compras é o direito de decidires sozinho. A franquia troca-te liberdade por método, e essa troca faz-se por contrato, com prazo. Quem entra a pensar que fica dono do seu negócio e depois descobre que não escolhe a passadeira, nem decide o preço da mensalidade, nem o software, sente-se enganado quando o problema foi não ter lido as cláusulas com atenção.
Esta decisão é anterior a tudo o resto. Vem antes de escolheres a localização e tratares do licenciamento e vem antes de fechares o plano de negócios, porque te mexe nos números de todas as linhas.
Quanto custa o direito de entrada e os royalties em Portugal?
Em Portugal, as franquias de ginásio são poucas e pouco transparentes. No diretório da Associação Portuguesa de Franchising aparecem três marcas no setor de ginásios e só duas publicam valores. A terceira, a CK Pilates, remete-te para o formulário de contacto. Não existe cá nenhum documento de divulgação obrigatório, do género do Franchise Disclosure Document americano, que obrigue a marca a mostrar os números antes de te sentares à mesa.
Estes são os valores publicados, mais uma referência internacional para perceberes a escala:
| Marca | Direito de entrada | Royalties | Fundo de marketing | Investimento total | Veredicto |
|---|---|---|---|---|---|
| Fitness Factory (PT) | 20.000 a 40.000 EUR | 1 EUR por cliente | Não tem | 80.000 a 400.000 EUR | Royalty fixo, previsível ao mês |
| Vivafit (PT) | 15.000 EUR | 5% da faturação sem IVA | 168 EUR | 25.000 a 50.000 EUR | Entrada baixa, royalty variável |
| Anytime Fitness (EUA) | 42.500 USD | 799 USD por mês e por clube | Consta do FDD de 2024 | 397.537 a 973.142 USD | Escala americana, não comparável |
| Abrir por tua conta | 0 EUR | 0 EUR | O que decidires | Definido por ti | Liberdade total, aprendizagem paga |
Repara na diferença entre os dois modelos portugueses, porque ela decide o negócio. Um royalty de 1 EUR por cliente custa-te 400 EUR num mês com 400 sócios, aconteça o que acontecer à mensalidade. Um royalty de 5% sobre 12.000 EUR de faturação custa-te 600 EUR e sobe-te sempre que subires os preços. Se planeias vender packs caros e serviços individuais, a percentagem sai-te bem mais cara do que parece na apresentação.
A Fitness Factory declara 9 unidades franchisadas e 4 próprias em Portugal, e aponta um retorno estimado de 4 anos. A Vivafit declara 16 franchisadas e nenhuma própria. Estes números vêm declarados pelas marcas ao diretório, ninguém os audita, e por isso trata-os como ponto de partida da conversa e não como facto verificado.
O fundo de marketing paga o quê, exatamente?
Aqui é onde as fichas ficam mais caladas. A Fitness Factory diz que não tem fundo de marketing. A Vivafit indica 168 EUR, mas a ficha não esclarece se é ao mês, ao trimestre ou ao ano, e essa distinção muda-te o orçamento anual em quase 2.000 EUR. Pergunta, e exige a resposta por escrito.
Quando negoceiares, põe-lhes estas quatro perguntas em cima da mesa:
- O fundo é percentagem ou valor fixo, e sobre que base se calcula?
- Que parte da verba volta à tua zona, e como é que te provam isso?
- Podes fazer campanhas locais por tua iniciativa, ou tens de as mandar à central para tas aprovarem?
- Se a marca gastar o fundo numa campanha nacional de televisão, o teu clube de 300 sócios numa vila do interior ganha o quê?
Nenhuma destas perguntas ofende um franquiador sério. Quem se irrita com elas está a dizer-te alguma coisa.
A exclusividade de zona protege-te de quê?
De menos do que julgas. O direito europeu permite a um franquiador atribuir-te um território exclusivo e proibir as outras unidades de fazerem prospeção ativa nesse território. O Regulamento (UE) 2022/720 define o sistema de distribuição exclusiva como aquele em que o fornecedor atribui um território a um máximo de cinco compradores e restringe as vendas ativas dos restantes nesse território.
Repara no pormenor: são vendas ativas. Se um morador da tua zona entrar por iniciativa própria no clube da marca a dois quilómetros de distância, ninguém lho pode recusar, e a cláusula de exclusividade não te devolve esse sócio. Ela protege-te da concorrência interna organizada, não da geografia real das pessoas.
Antes de assinares, escreve com o franquiador estas três linhas e guarda-as anexas ao contrato:
- O raio ou o conjunto de freguesias que te ficam atribuídos, com mapa.
- O que acontece se a marca abrir um clube próprio, e não franchisado, dentro desse raio.
- Se a exclusividade se mantém quando renovares o contrato, ou se volta a estar em jogo.
Obras, layout e fornecedores: onde é que o orçamento estoura
Um intervalo de investimento entre 80.000 e 400.000 EUR não é imprecisão da ficha, é a realidade de um caderno de encargos. A marca define-te o layout, o pavimento, a iluminação, a sinalética, os balneários e a lista de equipamento aprovado. Muitas vezes indica-te também o fornecedor, e nesse caso o desconto de central ou é real, ou é uma margem que a central te cobra sem dizer.
Pede o orçamento da obra chave na mão e depois manda-o a um empreiteiro teu para comparar linha a linha. Se o caderno te obriga a comprar 18 máquinas a um fornecedor único, pede-lhe o preço de tabela e compara-o com o preço da central. Fazeres esta verificação custa-te uma semana e pode poupar-te dezenas de milhares de euros, ou confirmar que a central negoceia melhor do que tu. Qualquer dos dois resultados paga a semana.
Compara sempre este número com o que te custaria abrir o mesmo espaço por tua conta. Se a diferença for de 30%, estás a pagar 30% pela marca e pelo manual. Saberes isso antes de assinares vale muito, e depois já não vale nada.
Podem obrigar-te a cobrar um preço certo?
Não podem, e este é dos poucos pontos em que a lei está claramente do teu lado. O artigo 4.º do Regulamento (UE) 2022/720 trata como restrição grave "a restrição da capacidade de o comprador estabelecer o seu preço de venda", ressalvando apenas que o fornecedor pode impor um preço máximo ou recomendar um preço, "desde que estes não correspondam a um preço de venda fixo ou mínimo".
Ou seja: a central pode recomendar 39,90 EUR e pode obrigar-te a não passares de um teto, mas não te pode impor um mínimo. Na prática, muitas redes conseguem-no por outra via, com campanhas nacionais de preço único e com tabelas que toda a gente segue por conforto. Se a tua zona aguenta 55 EUR e a rede comunica 39,90 EUR, essa diferença sai-te do bolso todos os meses.
Se estás a montar a tabela agora, convém perceberes primeiro como se define o preço das mensalidades e só depois discutires margens de manobra com a marca.
E o software, escolhe-lo tu ou vem imposto?
Quase sempre vem imposto, e é esta a cláusula que os donos leem à pressa e depois lamentam. A central precisa de números consolidados da rede, e para os ter obriga-te a operar no sistema que ela te indica. Até aqui é legítimo. O problema aparece nos detalhes que ninguém te explica na reunião: em nome de quem está a conta de pagamentos, quem emite a fatura ao sócio, onde vive a base de dados e o que levas contigo no dia em que saíres.
Faz estas perguntas antes de assinares e guarda-as respondidas por escrito:
- O dinheiro das mensalidades cai na conta bancária do teu ginásio, ou passa primeiro pela central?
- Que comissão pagas sobre cada cobrança, e soma-se ao royalty?
- Quem é o responsável pelo tratamento dos dados dos teus sócios para efeitos de RGPD?
- No fim do contrato, sais com a base de sócios em ficheiro aberto, ou sais só com o teu nome?
Esta última é a que dói. Um ginásio com 400 sócios que perde o contacto dos sócios ao sair da rede não fica com um negócio, fica com uma sala. Se um dia mudares de sistema, seja por saíres da rede seja por outra razão, o que te salva é teres previsto a migração dos dados desde o início. Para comparares com o custo de um sistema que é mesmo teu, os planos e preços estão publicados.
A mesma verba em franquia ou por tua conta: a conta comparada
A hipótese abaixo montámo-la nós para ilustrar a mecânica, não é um caso real nem representa nenhuma marca em concreto. Parte de 150.000 EUR de capital disponível, um espaço de 400 m² numa cidade média e uma faturação de 15.000 EUR por mês no primeiro ano.
| Linha | Em franquia | Por tua conta | Veredicto |
|---|---|---|---|
| Direito de entrada | 30.000 EUR | 0 EUR | A marca cobra‑se à cabeça |
| Obras e equipamento | 100.000 EUR ao caderno de encargos | 110.000 EUR negociados por ti | Empata, com mais trabalho teu |
| Marca, site e sinalética | Incluídos | 10.000 EUR | Ponto claro para a franquia |
| Fundo de maneio que te sobra | 20.000 EUR | 30.000 EUR | O independente respira melhor |
| Royalties no ano 1 | 9.000 EUR a 5% | 0 EUR | Custo recorrente, ano após ano |
| Preço e software | Enquadrados pela rede | Decides tu | Depende do que valorizas |
Ao fim de cinco anos, a linha dos royalties já te levou 45.000 EUR se a faturação se mantiver, e mais se ela crescer. É esse o preço do método e da marca. Não é caro nem barato em abstrato: sai-te caro se achares que descobrias o método por ti, e fica-te barato se souberes que não descobrias.
Quando é que a franquia compensa?
Não há regra, mas há um padrão que se repete. Responde a estas perguntas com honestidade antes de decidires:
- É a tua primeira vez a gerir um negócio, e não só a treinar pessoas? Então a franquia compensa-te mais.
- Tens capital para a entrada sem hipotecares o fundo de maneio? Se não tens, não avances.
- A marca já é conhecida na tua cidade, ou só em Lisboa e no Porto? Uma insígnia que ninguém reconhece na tua rua não te vale o direito de entrada.
- Conseguiste falar com três franquiados atuais escolhidos por ti, e não pela central? Se a marca te dificultar isso, já tens a tua resposta.
- Aguentas ver alguém decidir por ti durante cinco anos? Quem não aguenta acaba em litígio, e isso sai caro aos dois lados.
Fala também com um franquiado que tenha saído. É a conversa mais desconfortável de arranjar e é a que mais te ensina.
Perguntas frequentes
Existe alguma lei portuguesa específica para contratos de franquia?
Não existe um regime jurídico próprio do contrato de franquia em Portugal. Rege-se pelas regras gerais das obrigações e, nas cláusulas de preço e de território, pelo direito europeu da concorrência, com destaque para o Regulamento (UE) 2022/720. Por isso, o que não ficar escrito no teu contrato não te protege depois.
O franquiador é obrigado a mostrar-me as contas de outras unidades?
Não. Ao contrário dos Estados Unidos, Portugal não tem documento de divulgação pré-contratual obrigatório. Podes pedir demonstrações financeiras de unidades comparáveis e pedir contactos de franquiados, mas nenhuma norma obriga a marca a dar esses dados. A recusa em partilhar é, por si só, informação relevante.
Quanto pesa o royalty numa mensalidade de 40 EUR?
Depende do modelo. Um royalty de 5% tira-te 2 EUR em cada mensalidade de 40 EUR. Um royalty fixo de 1 EUR por cliente tira-te 1 EUR, suba ou desça o preço. Sobre 400 sócios, a diferença anual entre os dois modelos anda à volta de 4.800 EUR.
Posso sair da franquia antes do prazo?
Podes, quase sempre com penalização contratual e com uma cláusula de não concorrência que te impede de abrir na mesma zona durante um período. Lê essas duas cláusulas com um advogado antes de assinares, e não depois de te arrependeres.
Vale mais a pena franquia ou marca própria num estúdio pequeno?
Num espaço pequeno, a entrada e o royalty pesam-te proporcionalmente mais, porque a faturação é menor e os custos fixos da rede não descem. Faz a conta com os teus números antes de decidires, e compara-a com o custo de construíres marca própria devagar.
É isto que a Stryde te tira das mãos: faturação certificada, cobrança sem comissão e a base de sócios sempre tua, assines o que assinares. Vê-a a funcionar no teu espaço antes de te comprometeres com uma rede. Marcar demo
Fontes
- Regulamento (UE) 2022/720 da Comissão, EUR-Lex: texto do artigo 4.º sobre restrições graves, proibição de preço de venda fixo ou mínimo, e definição de sistema de distribuição exclusiva.
- Ficha da marca Fitness Factory, INFOFRANCHISING (APF): direito de entrada, royalty por cliente, ausência de fundo de marketing, investimento total, unidades e retorno estimado.
- Ficha da marca Vivafit, INFOFRANCHISING (APF): direito de entrada, royalty de 5% sem IVA, taxa de marketing de 168 EUR, área e número de unidades.
- Setor de ginásios no diretório INFOFRANCHISING: confirma que só três marcas de ginásio constam do diretório da Associação Portuguesa de Franchising.
- What it takes to be an Anytime Fitness franchisee: valores de referência internacional para taxa inicial, royalty mensal por clube e investimento total.