É obrigatório ter desfibrilhador (DAE) no ginásio?

Equipa Stryde · 11 min de leitura · Atualizado a 27 de agosto de 2026
Resposta rápida

Não. A lei portuguesa só obriga a instalar DAE em recintos desportivos, de lazer e de recreio com lotação superior a 5000 pessoas, entre outros locais de grande fluxo. O teu ginásio não chega lá. Mas se decidires pôr um, tens de licenciar o programa no INEM, com médico responsável e operacionais formados.

Neste artigo
  1. A lei obriga o meu ginásio a ter desfibrilhador?
  2. Que locais é que a lei obriga mesmo?
  3. Se eu puser um DAE por minha conta, tenho de o licenciar?
  4. Quem pode carregar no botão e de quanto em quanto tempo se recicla?
  5. Quanto te custa ter e manter um DAE?
  6. A câmara, a seguradora e a ASAE podem exigir-te o aparelho?
  7. O que deves ter montado mesmo sem DAE
  8. Perguntas frequentes
  9. Fontes

A lei obriga o meu ginásio a ter desfibrilhador?

Não obriga, e digo-to já sem rodeios porque metade do que se lê sobre isto em português vem de Espanha ou do Brasil, onde as regras são outras. A obrigação portuguesa está no Decreto-Lei n.º 184/2012, que alterou o Decreto-Lei n.º 188/2009 e fixou uma lista fechada de locais de acesso público. Um ginásio não entra nessa lista por ser ginásio. Entra se ultrapassar os limiares, e tu sabes bem que não os ultrapassas.

Convém teres presente outra coisa. O regime das instalações desportivas de uso público, o Decreto-Lei n.º 141/2009, não usa uma única vez as palavras desfibrilhador, socorro ou emergência. Se alguém te disser que a licença da instalação desportiva te exige o aparelho, manda-o ler o diploma antes de te vender seja o que for. A Resolução da Assembleia da República n.º 262/2021 recomenda que se instalem DAE em escolas e recintos desportivos, mas recomendação não é obrigação e ninguém a converteu em lei até hoje.

Que locais é que a lei obriga mesmo?

A lista é esta e vale a pena lê-la de uma ponta à outra antes de assumires que te apanha.

LocalLimiar da obrigaçãoAplica-se ao teu espaço?
Recintos desportivos, de lazer e de recreioLotação superior a 5000 pessoasSó se geres um pavilhão ou um estádio
Estabelecimentos de comércio a retalhoÁrea de venda igual ou superior a 2000 m2Não, um ginásio não é retalho
Conjuntos comerciaisÁrea igual ou superior a 8000 m2Não, mas o centro onde estás pode ter
Terminais rodoviários, estações e metroFluxo médio diário acima de 10 000 passageirosNão
Portos comerciais e aeroportosSempreNão

Se estás dentro de um centro comercial, fala com a administração e pergunta-lhes onde para o DAE do conjunto e quem é que lá tem formação. Isso não te dispensa de nada, mas muda-te o plano de emergência, e o plano escreve-se antes de precisares dele.

Se eu puser um DAE por minha conta, tenho de o licenciar?

Tens, e explico-te porquê. É aqui que a maioria dos donos se engana, porque acham que basta comprarem o aparelho e pendurá-lo na parede. O Decreto-Lei n.º 188/2009 sujeita a licenciamento a instalação e a utilização de DAE em locais de acesso ao público, e um ginásio é exatamente isso. O pedido entrega-se ao presidente do conselho diretivo do INEM e a decisão sai-te em 30 dias.

O que o licenciamento do programa de DAE te exige, em concreto:

  • Um médico responsável, com experiência relevante em medicina de emergência, cuidados intensivos ou cardiologia. Não tens de o contratar a tempo inteiro, mas tens de o ter nomeado.
  • Operacionais formados em SBV-DAE por entidade acreditada pelo INEM, em número suficiente para o horário que praticas.
  • Manutenção do aparelho segundo as especificações do fabricante. Ao médico responsável compete garanti-la, e a ti compete pagá-la.
  • Relatório de ocorrências semestral, que o médico responsável envia ao INEM.
  • Cópia da licença afixada em local visível para quem te entra pela porta.

A licença dura um ano a contar da emissão e renova-se automaticamente por iguais períodos. Quem opera sem programa licenciado arrisca coimas de 500 a 3740 EUR em nome individual e de 5000 a 44 500 EUR se a arguida for a sociedade. Guarda-a assinada na mesma pasta onde guardas o alvará e a apólice, que é onde a vais procurar quando alguém ta pedir.

Uma nota que costuma acalmar muita gente: a lei prevê que não seja punido quem usa o DAE sem estar habilitado, quando o ato lhe for estritamente necessário para salvar uma vida. Ninguém te leva a tribunal por teres pegado no aparelho para socorrer um sócio em paragem.

Quem pode carregar no botão e de quanto em quanto tempo se recicla?

Operacional de DAE é quem concluiu com aproveitamento um curso específico ministrado por entidade acreditada pelo INEM. O certificado vigora por três anos. Passados esses três anos, ou o reciclas ou deixas de ter operacional, e o programa fica coxo sem que ninguém te avise.

É este o ponto que mata os programas de DAE nos espaços pequenos. Montas tudo bem montado em janeiro, e três anos depois o instrutor que fez a formação já se foi embora, a monitora que ficou nunca a fez e o certificado que tens na gaveta caducou-te sem aviso. Faz as contas à rotatividade da tua equipa e vais perceber porque é que convém teres dois ou três operacionais, nunca um só.

O Programa Nacional de DAE lembra-te ainda uma coisa simples que toda a gente esquece: quem pratica o ato de DAE tem de ativar o 112, diretamente ou através de alguém que designe para o efeito. O aparelho não substitui a chamada, antecede-a mal.

Quanto te custa ter e manter um DAE?

O aparelho é a parte barata. O que te sai caro é o resto, e é o resto que ninguém orçamenta. Os preços abaixo são públicos, de fornecedores portugueses, e mudam com frequência, por isso confirma-os antes de decidires.

ItemPreço públicoOnde
DAE semiautomático Primedic Heartsave myPAD1099 EUR sem IVA, 1351,77 EUR com IVADesfibrilhador Shop
DAE semiautomático ZOLL AED Plus1199 EUR sem IVA, 1474,77 EUR com IVADesfibrilhador Shop
Caixa de parede para exterior549 EUR sem IVA, 675,27 EUR com IVADesfibrilhador Shop
Compra chave na mão, com licenciamento e manutenção1550 EUR de entrada mais 30 EUR por mêsIncrevita CardioRescue
Aluguer com programa incluído70 EUR por mêsIncrevita CardioRescue
Curso SBV‑DAE por formando65 EURIncrevita CardioRescue

A conta do primeiro ano montámo-la nós com estes preços, não é um orçamento que alguém te tenha dado: 1550 EUR de entrada mais doze meses a 30 EUR fica-te em 1910 EUR no ano um e em 360 EUR por ano a seguir, já com o curso para seis formandos incluído no pacote. Sai-te mais barato do que comprares o aparelho solto e descobrires daqui a quatro anos que os elétrodos caducaram e a bateria também.

Porque é isso que acontece, e acontece calado. Os elétrodos e a bateria têm validade impressa, morrem dentro da caixa e ninguém se lembra deles enquanto não forem precisos. Se contratares manutenção, alguém te avisa. Se não a contratares, o aviso tens de o pôr tu: marca-lhes a validade num autocolante grande e cola-o à altura dos olhos, num sítio onde o vejas todos os meses.

A câmara, a seguradora e a ASAE podem exigir-te o aparelho?

Podem, mas por outra via que não a lei do DAE, e importa que não confundas as duas coisas.

  • A câmara. No licenciamento do teu espaço podem entrar condições impostas pelo município, sobretudo se o edifício tiver outras utilizações. Se te aparecer essa exigência por escrito, cumpre-a: nesse caso é condição do teu alvará, não é o Decreto-Lei 184/2012.
  • A seguradora. O seguro obrigatório de acidentes pessoais não te obriga a ter DAE, mas a apólice pode trazer condições de prevenção que tu aceitaste ao assiná-la. Lê as condições especiais antes de a renovares, porque uma cláusula dessas ou se cumpre ou o sinistro discute-se.
  • A ASAE. Nas fiscalizações a ginásios verifica-se a responsabilidade técnica e o cumprimento dos diplomas do desporto, e nenhum deles fala em desfibrilhador. Não te iludas com o inverso: se tens DAE e não tens programa licenciado, aí sim ficas exposto.

Nada disto te tira o dever geral de segurança perante quem treina contigo. A obrigação legal é uma coisa, a responsabilidade civil quando corre mal é outra, e essa não se mede por limiares de lotação. Se um dia tiveres de a explicar a alguém, o que te vale é o plano escrito e a equipa formada, não o aparelho pendurado na parede.

O que deves ter montado mesmo sem DAE

Isto não te vem de nenhum diploma sobre desfibrilhadores. Vem do bom senso de quem tem gente a levantar peso e a fazer intervalos aos 55 anos.

  1. Escreve o plano de emergência numa folha A4 e cola-a atrás do balcão: quem liga 112, quem vai à porta receber a ambulância, quem fica com o sócio.
  2. Manda pelo menos dois da equipa a um curso de suporte básico de vida. Custa-te 65 EUR por pessoa e resolve-se numa manhã.
  3. Tem estojo de primeiros socorros a sério, com alguém encarregado de o verificar de três em três meses.
  4. Guarda a declaração de saúde de cada sócio assinada e acessível. O termo de responsabilidade e a declaração de saúde não te servem para te protegeres no papel, servem para saberes quem tem histórico cardíaco antes de o pores a fazer intervalos.
  5. Mantém o contacto de emergência de cada sócio atualizado na ficha, e não no telemóvel de quem estiver ao balcão nesse dia.
  6. Regista quem tem formação e quando é que ela caduca. Junta esse registo ao do teu diretor técnico, porque são a mesma família de papéis e caducam-te da mesma maneira.

Os pontos 4, 5 e 6 vivem naturalmente no software com que já geres os sócios. A Stryde guarda-te documentos e assinaturas na ficha de cada pessoa e avisa-te por email quando uma validade se aproxima. O que a Stryde não faz, e é justo dizê-lo, é gerir manutenção de equipamento: a validade dos elétrodos e da bateria tens de a acompanhar com o teu fornecedor.

Perguntas frequentes

Um ginásio de 300 sócios precisa de DAE por lei?

Não. O limiar legal são 5000 pessoas de lotação para recintos desportivos, de lazer e de recreio, e um ginásio de bairro fica-te muito abaixo disso. Se quiseres instalar um mesmo assim, podes, mas passas a ter de licenciar o programa no INEM.

Posso comprar um DAE e pendurá-lo na parede sem mais nada?

Não podes. Em local de acesso ao público, a instalação e a utilização de DAE dependem de licença do INEM, com médico responsável nomeado e operacionais formados. Sem programa licenciado expões-te a coimas que vão de 5000 a 44 500 EUR para a sociedade.

Quanto tempo dura a formação de operacional de DAE?

O certificado vigora por três anos, segundo o Decreto-Lei n.º 188/2009, e findo esse prazo tens de o recertificar. Forma sempre mais do que uma pessoa, porque o que costuma falhar não é o aparelho, é o operacional que saiu da equipa entretanto.

Se um sócio entrar em paragem e eu usar um DAE sem formação, sou punido?

A lei prevê que não haja punição quando o ato for estritamente necessário para salvaguardar a vida. Liga 112 primeiro, ou manda alguém ligar, e segue as instruções por voz do aparelho. A dúvida legal não deve nunca travar-te o socorro.

A minha seguradora pode obrigar-me a ter desfibrilhador?

A lei não te obriga, mas a apólice pode. Se as condições especiais do teu seguro exigirem meios de socorro específicos, isso passa a ser um compromisso teu. Lê-as antes de renovares e pede por escrito o que a seguradora considera suficiente.

Andar atrás de validades, certificados e declarações em papéis soltos é o tipo de trabalho que te come as manhãs e não te produz nada. Vê a Stryde a guardar isso tudo na ficha de cada sócio e de cada treinador. Marcar demo

Fontes

Equipa Stryde
Escrevemos sobre a gestão de ginásios, boxes, estúdios e escolas em Portugal. Factos verificados, fontes à vista.
Migração incluída

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