O open gym é um bom perk de retenção: dá valor ao plano ilimitado e enche horas mortas sem custo de coach. Mas há um senão que a maioria dos donos ignora. A Lei 39/2012 obriga a que, durante o horário de funcionamento da box, esteja presente um técnico de exercício físico com título do IPDJ. O open gym "sem ninguém", com chave ou código de acesso ao estilo 24/7 anglo-saxónico, vive numa zona cinzenta em Portugal, e quem responde se algo correr mal és tu e o teu diretor técnico. A saída que te cobre: abre o open gym só dentro de horas com um técnico presente na sala, com regras escritas de quem pode e do que pode.
Neste artigo
- O que é o open gym e porque é que as boxes o oferecem
- A realidade legal: quem tem de estar presente na box
- As regras do open gym: quem pode e o que pode
- Os modelos de supervisão (e o que cada um te custa)
- A etiqueta que evita conflitos na sala
- O que medir para saber se acertaste
- Perguntas frequentes
- Fontes
Todas as boxes chegam a esta pergunta. O atleta quer treinar o programa dele, recuperar um WOD que perdeu, trabalhar uma fraqueza fora da aula. Tu tens a sala vazia às 15h. Abrir o open gym parece a jogada óbvia: o plano ilimitado ganha valor, o atleta fica mais agarrado, e enches horas mortas sem pagares um coach. Tudo verdade. Menos uma parte, que quase ninguém olha antes de abrir a porta: a lei.
Este guia trata as duas coisas por ordem. Primeiro o perk, porque ele é real e vale a pena. Depois a realidade legal, o coração de tudo, onde te vou dizer o que a lei diz claro e onde é mesmo cinzento. E só no fim as regras e os modelos de supervisão que te deixam ter open gym sem ficares em falta.
O que é o open gym e porque é que as boxes o oferecem
Open gym é a hora em que a box abre a sala sem aula marcada, e o atleta treina o que quer. Uns fazem o programa deles, força, ginástica, o acessório que a aula não cobre. Outros vêm recuperar o WOD que perderam na segunda. Outros ainda trabalham uma fraqueza, o double-under que não sai, o handstand que trava, longe da pressão da aula.
Para o dono, a conta é simpática. O plano ilimitado deixa de ser só "aulas à vontade" e passa a ser "a box é tua quando quiseres": isso segura o atleta que já sente que rentabiliza a mensalidade. Enche as horas mortas, as 11h e as 15h em que a sala está parada, sem pôres um coach a dar aula para dois. E dá à comunidade um espaço para treinar junto fora do relógio do WOD, que é meia cola da box.
Tudo isto é verdade, e é por isso que quase todas as boxes acabam por oferecer open gym de uma forma ou de outra. O problema não é a ideia. É o "sem custo de coach" da conta de cima, que é onde a lei entra.
A realidade legal: quem tem de estar presente na box
Aqui está o coração da página, e é a parte que a maioria dos donos ignora até ter a ASAE à porta. Vou ser claro no que a lei diz claro, e honesto no que é mesmo cinzento.
O que está settled, e não é opinião minha: uma box é uma instalação de fitness, e cai por inteiro na Lei 39/2012, a lei do fitness. Cross training é fitness aos olhos da lei portuguesa, "seja qual for a designação" do espaço (Lei 39/2012, art. 1.º). Isso traz duas obrigações que já estão firmadas noutras páginas e valem aqui na mesma. Uma: a box tem de ter um diretor técnico (DT) com título do IPDJ, que assume a responsabilidade técnica de tudo o que ali se treina. Duas: quem orienta e conduz o exercício tem de ser técnico de exercício físico (TPTEF) com título válido do IPDJ (IPDJ, enquadramento dos técnicos de fitness). Quem contrata alguém sem título, ou funciona sem DT, comete contraordenação muito grave: coima de 4.500 € a 9.000 € para empresas, aplicada pela ASAE. Os detalhes destas duas obrigações estão no guia de contratar coaches para a box e no guia do diretor técnico. Reusa-os. Não os vou reabrir aqui.
O que isto quer dizer para o open gym é o ponto que temos mesmo de resolver: durante o horário de funcionamento da box, tem de estar presente um técnico de exercício físico responsável. A lei não pensa em "aula" versus "treino livre". Pensa em instalação a funcionar com pessoas a treinar. Se a box está aberta e há atletas a fazer exercício, a responsabilidade técnica não desliga só porque naquela hora não há WOD marcado. O DT responde pelo que se passa na sala à mesma.
E é aqui que o open gym "sem ninguém" tropeça. O modelo anglo-saxónico, chave ou código de acesso, o atleta entra às 6h sozinho, a box vazia de staff, o famoso 24/7, é o que a maioria dos donos tem na cabeça quando pensa em open gym. Em Portugal, esse modelo vive numa zona cinzenta, e vou dizê-lo com honestidade em vez de te vender uma certeza que não tenho: a Lei 39/2012 não escreve, palavra por palavra, "é proibido o atleta treinar sem técnico presente na sala". O que ela escreve é a obrigação de haver responsabilidade técnica pela instalação e de quem orienta o exercício ter título. A leitura mais segura, e a que qualquer DT sério faz, é que uma box a funcionar com atletas a treinar precisa de técnico presente. A leitura "a porta está aberta mas ninguém está a orientar, logo a lei não se aplica" é a que os donos gostam, e é exatamente a que ninguém quer estar a defender perante um inspetor depois de um acidente.
Porque o que resolve a dúvida na prática não é a letra fina. É a pergunta de quem responde se algo correr mal:
- A coima e a responsabilidade civil caem no DT e no dono. Se um atleta se lesiona em open gym sem técnico presente, tens uma instalação de fitness a funcionar sem a supervisão que a lei presume. A tua posição perante a ASAE e perante o tribunal fica frágil, e o DT está lá com o nome.
- O seguro é a pergunta que fecha o assunto. Cobre a tua apólice de responsabilidade civil um acidente que aconteceu com a box aberta e sem técnico na sala? Não te fio na minha resposta nem na de ninguém num blog. É a pergunta a fazer, por escrito, à tua seguradora, com o teu modelo de open gym descrito ao pormenor. Se a resposta for "não cobre sem supervisão", o modelo sem ninguém acabou ali, e ainda bem que perguntaste antes e não depois.
A conclusão honesta desta secção: não te digo que o open gym sem técnico é ilegal a preto e branco, porque a lei não é preto e branco nesse ponto. Digo-te que é a zona cinzenta mais cara que a box tem, que a responsabilidade é toda tua, e que a saída limpa existe e não é assim tão cara. É o resto do guia.
As regras do open gym: quem pode e o que pode
Um open gym sem regras escritas é um acidente à espera de acontecer, e uma reclamação à espera de dono. As regras não são burocracia: são o que separa um perk que segura atletas de um risco que te tira o sono. Desenha-as assim.
Quem pode entrar em open gym. Não é toda a gente que assina a mensalidade. É o atleta que já sabe treinar sozinho com segurança:
- Só atletas com o onboarding feito. Fundamentals completos, uns meses de casa, movimentos base validados por um coach. O atleta que entrou há duas semanas não faz open gym: faz aula, onde alguém o corrige. A lógica de quem entra bem está no guia de onboarding e fundamentals da box, e é a mesma porta para o open gym.
- Menores, nunca sem supervisão direta. Isto não é cinzento: um menor a treinar sozinho na tua box é um não rotundo, sempre, seja qual for o horário. Consistente com o que vale para as aulas de kids na box, onde a supervisão é a regra que não se dobra.
O que se pode fazer em open gym. Nem tudo o que a sala permite é sensato sem coach por perto:
- Trabalho próprio, sim. Acessórios, cardio, skill work, o programa do atleta, mobilidade. É para isto que o open gym existe.
- Máximos de 1RM sozinho, não. Puxar um 1RM de agachamento ou de levantamento terra sem ninguém a fazer spot é onde as coisas correm mesmo mal. PRs pesados ficam para dentro da aula, com coach. Escreve esta linha, é das que evita a lesão feia.
- Equipamento que fica fechado. Se há material que não deve andar sem supervisão, fecha-o. Menos escolhas más disponíveis, menos problemas.
Escreve estas regras num regulamento de open gym de meia página, mete-o na app onde o atleta marca, e faz o atleta aceitá-lo uma vez. A regra escondida numa cláusula que ninguém leu não protege ninguém, nem a ti nem ao atleta.
Os modelos de supervisão (e o que cada um te custa)
Resolvida a pergunta de quem pode e do que pode, falta a que fecha a legal: quem é o técnico presente enquanto há open gym. Há três modelos na prática, e convém dizer o que cada um implica sem rodeios.
O coach de sala dedicado. A hora de open gym publicada tem um técnico de exercício físico presente que não dá aula, mas está ali a supervisionar. É a versão mais limpa perante a lei: há técnico responsável na sala, ponto. Custa-te o coach dessa hora, e é esse o preço da tranquilidade. Faz contas: se o open gym enche o suficiente para pagar a hora do coach, é o modelo a escolher. Se não enche, junta-o ao ponto seguinte em vez de o abrir a perder dinheiro.
Open gym sobreposto às aulas. O coach que está a dar a aula é o técnico presente, e o atleta de open gym treina ao lado. É a prática mais comum nas boxes cá, e resolve a lei, porque há técnico na sala, mas implica duas coisas que tens de olhar de frente. O rácio: se o coach já tem quinze atletas na aula, mais três em open gym é atenção dividida por dezoito, e a segurança de todos baixa. E a atenção: o coach está focado na aula, não no atleta que puxa um pesado sozinho a um canto. Se usas este modelo, limita as vagas de open gym sobreposto a poucas, e deixa claro ao atleta que ele treina por conta e risco dentro das regras, não com coaching individual.
A vaga de open gym reservável na app. Não é um modelo à parte, é o que faz os dois de cima funcionarem: o atleta reserva a vaga de open gym como reserva uma aula, com um número máximo de lugares. Isto dá-te duas coisas que à mão não tens. Capacidade: sabes quantos atletas estão em open gym numa dada hora antes de eles chegarem, e o coach não é surpreendido com meia box a treinar por conta própria. E accountability: fica registo de quem estava na sala e quando, que é o que interessa ter se algum dia houver um incidente. A mecânica de vagas, janela e lista de espera é a mesma das aulas, e está por inteiro no guia de marcações de aulas na box, que trata o open gym ao lado das aulas. Reusa-a.
A etiqueta que evita conflitos na sala
Com técnico presente e vagas reservadas, falta a camada que impede o open gym de estragar a aula que decorre ao lado. São regras de cultura, não de lei, e valem porque um open gym mal comportado azeda a comunidade mais depressa do que qualquer coima.
- A regra de ouro: a aula tem prioridade. O atleta de open gym não usa o equipamento que a aula precisa, não corta o espaço do WOD, não pede coaching ao coach que está a dar aula. A aula manda na sala; o open gym encaixa-se à volta.
- Arruma o que usaste. Anilhas no sítio, barra descarregada, o material como o encontraste. Um open gym que deixa a sala em desordem para a aula seguinte é uma fonte de atrito garantida.
- A música e o barulho. Quem treina sozinho não impõe a playlist dele nem grita ao levantar. Partilha-se o espaço, partilha-se o ambiente.
Escreve isto no mesmo regulamento de meia página. São três regras de bom senso, mas postas por escrito evitam a conversa desagradável ao balcão quando alguém as ignora.
O que medir para saber se acertaste
O open gym ou puxa a box para cima ou é só risco parado. Três números dizem-te qual dos dois:
- Utilização do open gym por hora. Que horas de open gym enchem e quais ficam vazias. É o que te diz se vale a pena manter a hora aberta ou se estás a pagar um coach para dois atletas. Trata isto como o mapa de ocupação das aulas: lê-o toda a semana.
- Percentagem de atletas ativos que usam o open gym. É o número do valor do perk. Se metade dos teus atletas ilimitados usa o open gym, ele está a segurar gente e a justificar o plano. Se quase ninguém o usa, é um risco que carregas sem retorno, e talvez a resposta seja fechá-lo em vez de o supervisionar.
- Incidentes: zero é o único número aceitável. Uma lesão em open gym sem técnico presente não é um azar, é a fatura da zona cinzenta a chegar. Aqui não há margem: o número que persegues é zero, e a forma de o manter é a supervisão e as regras de cima, não a sorte.
Registados na app, estes números tratam-se sozinhos e viram o teu painel do open gym, em vez de uma sensação vaga de que "acho que anda gente lá às tardes".
Perguntas frequentes
O open gym sem coach é legal em Portugal?
É a zona cinzenta mais cara da box. A Lei 39/2012 não escreve, palavra por palavra, que é proibido o atleta treinar sem técnico presente, mas obriga a que a instalação de fitness tenha responsabilidade técnica e que quem orienta exercício tenha título do IPDJ. A leitura segura, e a que qualquer DT sério faz, é que uma box a funcionar com atletas a treinar precisa de técnico presente. O modelo "sem ninguém", com chave ou código, deixa-te a ti e ao teu DT a responder por qualquer acidente.
Quem responde se um atleta se lesionar em open gym?
Tu, o dono, e o diretor técnico da box. Se o acidente acontece com a box aberta e sem técnico de exercício físico presente, tens uma instalação de fitness a funcionar sem a supervisão que a lei presume, e a tua posição perante a ASAE e perante o tribunal fica frágil. A coima da Lei 39/2012 chega aos 9.000 € para empresas, e há ainda a responsabilidade civil por cima.
O meu seguro cobre um acidente em open gym sem supervisão?
Essa é a pergunta a fazer à tua seguradora, por escrito, com o teu modelo de open gym descrito ao pormenor, e não a resolver com o que lês num blog. Se a apólice de responsabilidade civil não cobrir um acidente com a box aberta e sem técnico na sala, o modelo sem ninguém acaba aí. Pergunta antes de abrir a porta, não depois de haver uma lesão.
Como abro open gym sem ficar em falta com a lei?
Abre-o só dentro de horas com um técnico de exercício físico presente na sala, seja um coach dedicado a essa hora, seja o coach da aula que decorre ao lado. Junta regras escritas de quem pode (só atletas com os fundamentals feitos, menores nunca sozinhos) e do que pode (trabalho próprio sim, 1RM sozinho não), e faz o atleta reservar a vaga na app. É a versão que te cobre.
Posso deixar os atletas com mais experiência treinarem sozinhos fora de horas?
É precisamente o modelo mais arriscado, e o que mais donos gostariam de fazer. Mesmo com atletas experientes, uma box aberta sem técnico presente cai na zona cinzenta da Lei 39/2012, e a responsabilidade é toda tua e do DT. Se o queres mesmo, a experiência do atleta não muda a conta: a pergunta certa é o que a tua seguradora cobre e o que o teu DT está disposto a assinar.
O open gym é um bom perk, e vale a pena tê-lo. Mas tem-no da forma que te cobre: dentro de horas, com técnico presente, com regras escritas de quem pode e do que pode, e cada vaga reservada e registada. Feito à mão, é o coach a tentar controlar de cabeça quem está na sala enquanto dá aula. É isto que o Stryde te tira das mãos, da reserva ao registo de quem esteve a treinar. Marca uma demo e vê o Stryde a funcionar no teu espaço.
Para o resto do desenho da box: o guia de contratar coaches e o TPTEF, as marcações de aulas e o open gym ao lado, e como faturar os drop-ins de turistas.
Fontes
- Lei n.º 39/2012, de 28 de agosto (Diário da República). Regime da responsabilidade técnica pela direção das atividades de fitness. Art. 1.º (aplica-se a ginásios, academias e boxes, "independentemente da designação"); art. 4.º (obrigação de diretor técnico que assume a responsabilidade pelas atividades desportivas na instalação); art. 11.º (título de técnico de exercício físico para quem orienta o exercício); art. 23.º e 24.º (contraordenações e coimas, 4.500 € a 9.000 € para pessoas coletivas); fiscalização pela ASAE. A lei não regula em separado o "open gym"; a exigência de responsabilidade técnica pela instalação em funcionamento é a base da leitura desta página. Lei alterada posteriormente; confirma a versão em vigor.
- IPDJ, Enquadramento da Atividade dos Técnicos de Fitness. Fronteira entre o fitness (Lei 39/2012, técnico de exercício físico) e as modalidades federadas. O cross training cai do lado do fitness, por isso a box segue esta lei.
- IPDJ, Título Profissional de Técnico de Exercício Físico. O que é o título que a lei exige a quem orienta exercício numa instalação de fitness, e como se emite e revalida.